De olho na vida
Sem perceber
largamos os contos infantis pelo primeiro beijo, “sem perceber” parece perfeito
para essa mudança. Os contos infantis com as princesas e príncipes encantados
nos faz viajar por um mundo perfeito, e na inocência acreditamos pertencer a
esse mundo. As bruxas, madrastas, e o lobo mal nos mostra uma trilha com
pedras, alertando que nelas podemos tropeçar num cotidiano talhado. Como em
todo conto infantil o mal é derrotado, e todos são felizes para sempre, nos
vestimos de princesa e andamos no mundo dos sonhos, nesse mundo criamos amigos
imaginários, brincadeiras e somos felizes.
Sem perceber
trocamos a roupa da princesa, pela vontade de colocar um piercing, fazer uma tatuagem, vestir o que nos faz diferente, e
inicia o complexo processo de transição. Conflitos internos nos faz tristes e
alegres ao mesmo tempo, o mundo não nos compreende e muito menos nós nos
compreendemos. Jogamos fora a fantasia, e nos revestimos do que nos diferencia,
mas que ao mesmo tempo nos aproxima da “thurma”. Tem dias que queremos ser o
centro do mundo, em outros dias gostaríamos de ser o Gasparzinho. Vivendo nessa
insanidade, percebemos que o mundo não é tão perfeito, em algumas vezes parece
que o mundo é das madrastas, das bruxas e do lobo. Nesse prisma as princesas e
os príncipes deixam de ser modelos pragmáticos, e como princípios norteadores parecem
bobos e ingênuos.
Sem perceber
nessa insanidade existencialista aparece o sonho do primeiro beijo, um sonho
que provoca arrepios e mexe com o interior. Os beijos dos filmes são observados,
e alguns príncipes deixam de ter tronos, e passam a ter nome. Trocamos a roupa
do príncipe, e arbitrariamente continuamos a carregá-los em nossos sonhos.
Quando o primeiro beijo acontece, realmente parece um sonho, o corpo estremece
e o coração acelera como se o mundo voltasse a ser perfeito. Assim como nos
contos infantis a bruxa e o lobo retornam, revestidos de decepções, desilusões
e mais uma vez o mundo perfeito extrapola a completude.
Sem perceber trocamos
os príncipes pelo Shrek, abandonamos
a necessidade do príncipe dos contos ou dos filmes e nos divertimos com um Ogro
sem palácio, que consegue fazer a princesa se apaixonar por ele, assim a linda
princesa se assemelha ao Ogro e constroem uma família muito próxima das
famílias que conhecemos. O burrinho fala o que queremos expressar, quando não
paramos de perguntar o que não tem resposta. Sem o mundo Ogro vamos nos
reconciliando com o mundo que vivemos.
Sem perceber
deixamos a vida seguir, em alguns dias a vida se completa na alegria, em outros
parece um rio de lágrimas. Nos colocamos na estrada da vida, em meio as curvas brincamos
de jogar o corpo para esquerda e direita, com as pedras e giz brincamos de
amarelinha, quando a tristeza quer nos alcançar brincamos de esconde-esconde. Entre
as brincadeiras realimentamos as percepções múltiplas e as promovemos nas
realizações da criança, que há muito tempo deixou o primeiro beijo estremecer o
corpo, mas não desistimos de brincar. Nesse percurso perpassamos pelo
deslocamento das princesas, para a transformação dos traços como precursor do
mundo, com a virilidade do primeiro beijo.
Stella Maris
Macedo de Sousa
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