Brincando de olhar o passado escuto o coração.


 
Com o olhar no passado escuto o barulho da bicicleta do meu avô entrando no quintal da minha casa. Sem alarde ele entrava, observava e com pouca prosa se preocupava com todos.

Era uma rotina carinhosa e cuidadosa. Um homem que viveu sem carro, sem luxo e intensamente.

Uma saudade que mistura com minha história, saudade dos dedos ansiosos dedilhando o sofá, da agonia das visitas no horário do seu programa preferido da TV, da refeição repetida em horários determinados. Saudade com sabor de história!

Sem nostalgia, com o coração no presente, me perco em pensamentos e os coloco nos momentos que vivo. Dias que movem como nuvem, ora intensamente ora leve. Em dias intensos pode chegar a escorrer lágrimas, e com dor lava tudo como rio. Nos dias leves as nuvens são pequenos blocos de algodão que formam figuras e dançam. Numa dinâmica de viajar pelas nuvens, encontro um céu maravilhoso. Nessa analogia das nuvens com minha história encontro me numa dança incerta, que se move mais rápido que meus passos, por muitas vezes preciso saltar de uma nuvem para outra, e assim alcanço o que penso ser o concreto. Quando penso em me aninhar numa nuvem, vem um vento forte muda tudo! Algumas vezes limpa o céu que está carregado de chuva, com nuvens pesadas. Outras vezes o céu azul com nuvens leves se desaba em chuva e nuvens pesadas.

Em meio a essa dança sem maestro vou vivendo um dia de cada vez. Tento conter minha curiosidade quanto ao futuro e seguro a nostalgia, na esperança de viver só a dança do presente. Lembranças do passado invadem meu presente e trazem pedacinhos da minha história, para compor um presente que não se faz sozinho. Presente sem passado não conta história, e passado com nostalgia aprisiona. Sem amarras permito ao passado um passeio pelas lembranças e a saudade compor o que vivi e aprendi, para poder continuar minha dança entre as nuvens.      

A minha história parece não misturar se com a história do meu avô. O meu avô tinha uma vida marrom, como a terra que pisou, o mundo lhe deixava a ansioso e não conseguia olhar para as nuvens. Com uma vida enraizada no chão as nuvens só serviam para molhar a terra, e fazer brotar.

Misturar nuvens com terra só é possível, na minha história. Só consigo voar com as nuvens porque tive um olhar que guardou a terra que meu avô pisoteou. Assobiar enquanto amassava a terra  acalmava  sua agonia,  com cuidado na voz  falava suas ansiedades. Gostava de ouvir suas histórias. Histórias contadas no silêncio!

Nesse silêncio cheio de histórias comecei a aprender a ler os sentimentos. Numa leitura que perpassa as letras leio o mundo. Aprendi a ler o que não está escrito nos poemas, a interpretar o que não foi dito. Nesse silêncio carregado de palavras fui caminhando para literatura, sonhos de infância se concretizam em meus poemas. 

Na história do meu avô que nunca invadiu e se fez presente sem alarde, misturou se com as nuvens que viajo, com as nuvens que piso firme e danço; às aquela terra pisada por ele. Naquela bicicleta com garupa que nunca carregava ninguém, nas poucas peças de roupas que julgava necessário, na vontade de pescar, nos legumes que nunca gostou, no paladar simples, guardo meu avô em minhas lembranças. Uma história moldando tantas outras! História acolhida na saudade!

 

Stella Maris C Macedo de Sousa

 

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